Poesia

 

.

ENVELHECER

 

Tu que me espreita

Em meio a esses espessos pingos que caem

Esses pingos de chuva que chegam ao cair da noite

Pessoas se abrigam

Somente as lanternas dos postes ainda permanecem acesas

Experimento a chuva caindo em minha vida

E levando com ela meus temores

Aventuro negociar com o tempo meus próximos anos

Não tenho alternativa

Do mesmo modo que chuva chega repentinamente

Também chegarão meus derradeiros anos

Desejo ser qual a chuva

Aquela que se reconstitui a toda estação

Em meu corpo o tempo não se renova

Apenas chega, alterando meus desejos e mistérios

Tu que me espias

Não notas o quanto modifico a cada amanhecer

Minhas revelações deixaram de conter mistérios

Apenas fazem parte do contexto de viver

A chuva persiste mansa e suave

Sinto nela uma harmonia que acalma e perfuma minha alma

Reflito em partir ao término da chuva

Penso em segui-la em sua caminhada errante

Queria que a vida não me arrastasse por caminhos confusos

Minha visão distorce o brilho da chuva

Minhas vontades já não pertencem apenas a mim

Faço parte da legião dos que começam a envelhecer

Chove lá fora

Aqui dentro adentra um frio intenso

Pressinto que minhas queixas desgostam a chuva

A fina chuvinha que caia

Depressa tenta transformar-se em chuva forte

Há um vento se formando em torno dessa chuva

O céu cedeu seu nuance espelhado a esse negrume

A mesma tempestade que tumultua minha vida

Agora desaba ante meu olhar admirado

O céu se rebelou contra meus receios

Sinto frio

Não consigo consentir em observar o tempo estender-se

Procuro fazê-lo estender-se sem pressa

Não consigo

Há uma tempestade precipitando em meu ser

Lá fora a tempestade desaba sobre o mundo

Procuro aquecer-me da friagem que ela carrega

Através de minha vidraça, vejo a chuva desabando enraivecida

Tento acalorar meu corpo temeroso e frio

Começo a adormecer

Embora ainda escute a chuva que persisti em desabar

Sonho com meu novo tempo

Sonho que em meu despertar

A chuva terá levado minha insensatez.

Aproximo de minha intimidade

Pressinto que meu desejo

É de ser novamente uma flor se abrindo

Espelho-me na chuva

Aquela que desaba em nossa existência

Purificando nossos medos

Vou aceitar que a vida me abrigue em seus braços

Tudo que quero são novos caminhos

Quero deitar-me com a vida

E me perpetuar em seus beijos.

                            (Sonia Santos - Janeiro/2003)


Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá


Anterior

MAPA DO SITE

Próxima

         

         

HP atualizada: 18/01/2004


O site já obteve clicks após 01/01/2004