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ENVELHECER
Tu que me espreita
Em meio a esses espessos pingos que caem
Esses pingos de chuva que chegam ao cair da noite
Pessoas se abrigam
Somente as lanternas dos postes ainda permanecem acesas
Experimento a chuva caindo em minha vida
E levando com ela meus temores
Aventuro negociar com o tempo meus próximos anos
Não tenho alternativa
Do mesmo modo que chuva chega repentinamente
Também chegarão meus derradeiros anos
Desejo ser qual a chuva
Aquela que se reconstitui a toda estação
Em meu corpo o tempo não se renova
Apenas chega, alterando meus desejos e mistérios
Tu que me espias
Não notas o quanto modifico a cada amanhecer
Minhas revelações deixaram de conter mistérios
Apenas fazem parte do contexto de viver
A chuva persiste mansa e suave
Sinto nela uma harmonia que acalma e perfuma minha alma
Reflito em partir ao término da chuva
Penso em segui-la em sua caminhada errante
Queria que a vida não me arrastasse por caminhos confusos
Minha visão distorce o brilho da chuva
Minhas vontades já não pertencem apenas a mim
Faço parte da legião dos que começam a envelhecer
Chove lá fora
Aqui dentro adentra um frio intenso
Pressinto que minhas queixas desgostam a chuva
A fina chuvinha que caia
Depressa tenta transformar-se em chuva forte
Há um vento se formando em torno dessa chuva
O céu cedeu seu nuance espelhado a esse negrume
A mesma tempestade que tumultua minha vida
Agora desaba ante meu olhar admirado
O céu se rebelou contra meus receios
Sinto frio
Não consigo consentir em observar o tempo estender-se
Procuro fazê-lo estender-se sem pressa
Não consigo
Há uma tempestade precipitando em meu ser
Lá fora a tempestade desaba sobre o mundo
Procuro aquecer-me da friagem que ela carrega
Através de minha vidraça, vejo a chuva desabando enraivecida
Tento acalorar meu corpo temeroso e frio
Começo a adormecer
Embora ainda escute a chuva que persisti em desabar
Sonho com meu novo tempo
Sonho que em meu despertar
A chuva terá levado minha insensatez.
Aproximo de minha intimidade
Pressinto que meu desejo
É de ser novamente uma flor se abrindo
Espelho-me na chuva
Aquela que desaba em nossa existência
Purificando nossos medos
Vou aceitar que a vida me abrigue em seus braços
Tudo que quero são novos caminhos
Quero deitar-me com a vida
E me perpetuar em seus beijos.
(Sonia Santos - Janeiro/2003)
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HP atualizada: 18/01/2004